O que aconteceu
No dia 25 de abril de 2026, durante a sessão solene comemorativa do 52.º aniversário do 25 de Abril na Assembleia da República, André Ventura (líder do Chega) discursou e repetiu várias vezes (notícias falam em três a cinco ocorrências) a expressão “apunhalados pelas costas” (exemplos: “Apunhalados pelas costas assim fomos” e, no final, “não nos esqueceremos dos que nos apunhalaram pelas costas”).
Ele usou-a no contexto da Guerra Colonial (1961-1974): criticou quem “exalta guerrilheiros que estavam a matar militares portugueses”, defendeu que o 25 de Abril deve “assumir toda a nossa história” (e não só os “capitães de Abril”), e argumentou que o dia pertence a todas as Forças Armadas, incluindo os combatentes que, na sua visão, foram traídos internamente ou abandonados no processo de descolonização. Ventura também falou aos “silenciados e esquecidos de Abril” e levou um cravo verde na mão, que mostrou durante o discurso (em contraste com o vermelho habitual).
Poucas horas depois, durante as comemorações na Avenida da Liberdade, Rui Tavares (co-porta-voz do Livre) acusou publicamente Ventura de ter repetido “quatro ou cinco vezes uma frase de Hitler, como se não fosse nada”. Tavares ligou a expressão diretamente à Dolchstoßlegende (a “lenda da punhalada pelas costas”), o mito pós-Primeira Guerra Mundial que alegava que o exército alemão não fora derrotado militarmente, mas traído por civis, socialistas, judeus e políticos internos — mito que Hitler e os nazis exploraram intensamente como propaganda contra a República de Weimar.
A polémica ganhou cobertura imediata na comunicação social, com a esquerda a ver na escolha de linguagem uma referência ao tropo nazi, e o Chega a enquadrá-la como defesa legítima dos militares e dos “silenciados”.
O que acho
Acho que foi uma citação/alusão consciente, não uma trapalhada inocente.
Aqui está o meu raciocínio claro e direto, baseado nos factos do discurso e no perfil político de Ventura:
• A repetição deliberada (três a cinco vezes no mesmo discurso curto) não é típica de um deslize. Frases como “Apunhalados pelas costas assim fomos” e “não nos esqueceremos dos que nos apunhalaram pelas costas” foram usadas para estruturar a ideia central: os militares portugueses combateram no terreno na Guerra Colonial, mas foram traídos internamente por políticos, pela descolonização acelerada e pela narrativa posterior que “exalta guerrilheiros”. Essa estrutura narrativa — “não fomos derrotados militarmente, fomos apunhalados por inimigos internos” — é quase idêntica à Dolchstoßlegende. Quem repete tanto uma fórmula tão específica sabe o que está a fazer.
• Ventura é um político experiente, com formação jurídica, que construiu a sua imagem precisamente em intervenções provocadoras, linguagem binária (patriotas vs. traidores, silenciados vs. elites) e escolhas retóricas que geram reação forte. Ele não é ingénuo nem desleixado com palavras. Escolher esta expressão num discurso solene do 25 de Abril, data simbólica do antifascismo e da democracia em Portugal, num contexto em que falava de “assumir toda a nossa história” e criticava quem minimiza o sacrifício das Forças Armadas, indica consciência da carga simbólica.
• Em política, especialmente na direita radical europeia, este tipo de tropo funciona como dog-whistle: soa como defesa patriótica legítima (“os nossos soldados foram traídos”) para a base e para quem não conhece a história alemã em detalhe, mas ativa ressonâncias mais profundas em quem reconhece o paralelo histórico. Permite negação plausível (“foi só uma metáfora comum sobre traição”), mas a repetição e o timing sugerem que o efeito polémico foi antecipado e, provavelmente, bem-vindo para mobilizar apoiantes e dominar o ciclo noticioso.
Claro que Ventura não disse “estou a citar Hitler” — ninguém o faria num parlamento democrático. Mas isso não torna a escolha inocente. A expressão “apunhalado pelas costas” existe em português para qualquer traição, e há quem a use há décadas no debate sobre a descolonização sem intenção nazi. No entanto, o contexto + repetição + data sensível pesam muito mais a favor de uma escolha calculada do que de um erro desastrado.

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